quarta-feira, 12 de abril de 2023

A concepção de texto




Os textos fazem parte e constituem todos os processos interacionais verbo-imagéticos desempenhados pela humanidade no passado e no presente. Embora entendamos que os textos são mensagens que circulam no interior do seio social, muitas vezes nos escapa uma noção mais clara sobre o que atribui a uma mensagem o status de texto. 

Hoje, todos temos consciência, mesmo que intuitivamente, do papel central do texto na comunicação. É através dele que nos comunicamos com os nossos interlocutores a partir de uma série de finalidades específicas. O caráter dinâmico do texto, ao contrário do que ainda é propagado em muitas escolas, permite concebê-lo como algo que não se restringe à expressão linguística puramente escrita, mas que, na verdade, corresponderá a toda e qualquer unidade significativa que emerge da interação entre os coenunciadores, os quais, a partir da correlação que se dá entre fatores situacionais, cognitivos, socioculturais e interacionais, conseguem construir o texto como uma unidade de coerência (KOCH, 2003). A abrangência dessa concepção foi essencial para ampliar o escopo das análises textuais realizadas a partir dos pressupostos teóricos da Linguística Textual, o que possibilitou, inclusive, o estudo de textos verbo-imagéticos[1].

Segundo Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014), é importante ressaltar que o texto pode ter qualquer extensão e que este apresenta uma unidade de sentido e uma intenção, a qual, em outras palavras, corresponde ao objetivo que o locutor almeja alcançar através de sua produção textual e que o interlocutor, por sua vez, consegue reconhecer na interação. Tal viés nos leva a afirmar que o texto não equivale a um produto estanque e acabado, mas a uma ocorrência comunicativa, nos termos de Beaugrande e Dressler (1981), a partir da qual ocorre uma construção interativa de sentidos e que perpassa atividades de caráter linguístico e também sociocognitivo[2].

Se considerarmos o gênero bilhete como um exemplo, teremos de atentar para o fato de que textos correspondentes a esse gênero textual tendem a apresentar mensagens consideravelmente breves, destinadas a sujeitos inseridos em um dado contexto comunicativo. Para ilustrar, imaginemos o contexto de uma sala de aula em que dois colegas trocam mensagens através de bilhetes na tentativa de não chamar a atenção do professor. Um dos meninos chama o amigo para ir ao cinema após a aula mas recebeu uma resposta negativa na forma de um “não”. Essa mensagem faria sentido ao chegar até o aluno que convidou o amigo para sair. Entretanto, caso o bilhete fosse extraviado, aquele que entrasse em contato com a mensagem não poderia recuperar a unidade de sentido e de comunicação dessa mensagem, já que ela está descontextualizada. Assim, comungamos com a ideia de que

A existência de um texto está atrelada à possibilidade de se atribuir coerência a uma dada ocorrência comunicativa (não exclusivamente linguística). A coerência surge da percepção de uma unidade negociada de sentido que depende da intenção argumentativa do locutor, da coparticipação do interlocutor, das indicações marcadas na superfície do texto e de um vasto conjunto de conhecimentos compartilhados (CAVALCANTE; CUSTÓDIO FILHO; BRITO, 2014, p. 21, grifo nosso).

 

Esse raciocínio sustenta a percepção de que texto e coerência são como os dois lados de uma mesma moeda, conforme o texto só será texto enquanto for coerência, ou seja, enquanto for possível lhe atribuir um significado. A consolidação de um texto como coerência implica, necessariamente, uma coparticipação, uma vez que o interlocutor, enquanto coenunciador, é um participante efetivo do processo de construção da coerência textual, o qual demanda uma série de conhecimentos que estão presentes em nossa memória. Cavalcante, Custódio Filho e Brito (2014) afirmam que tais conhecimentos são culturalmente determinados e que apresentam em sua essência um caráter sócio-histórico, o que sustenta o status sociocognitivo do texto e também da coerência.


[1] Exemplificamos os estudos de textos verbo-imagéticos com a Gramática do Design Visual, criada por Kress e van Leewen (1996, 2006), os quais compreendem que as imagens são estruturas sintáticas e que, por isso, podem ser analisadas da mesma forma que a linguagem. Para proceder com esse tipo de análise, os autores tomaram como ponto de partida as categorias da gramática sistêmico-funcional de Halliday (1985).

[2] Koch (2003) atribui o processamento textual à existência de três sistemas centrais de conhecimento: os sistemas linguístico, enciclopédico e interacional. O conhecimento linguístico possibilita a organização do material linguístico na superfície textual, enquanto o conhecimento enciclopédico aponta para o conhecimento armazenado mentalmente pelos indivíduos acerca de fatos proposicionais do mundo, além de também englobar os modelos episódicos/cognitivos que são determinados social e culturalmente através da experiência de cada indivíduo. Por fim, o conhecimento sociointeracional abarca os conhecimentos ilocucionais, comunicacionais, metacomunicativos e superestruturais, os quais se referem às formas de interação através da linguagem.


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